- A madrugada mais fria de minha vida. Era tudo o que ela conseguia balbuciar quando lhe perguntavam sobre o que havia acontecido naquela noite.
Minhas professoras na escola achavam que eu era louco. Isso não era por meu jeito introspectivo que preocupava tanto minha mãe, mas por algo muito mais curioso. Eu adorava ler enquanto escrevia. Era tão maravilhoso ouvir o som ritmado de cada letra, cada ponto e vírgula surgiam. Arriscava uns ponto e vírgulas, (ousado, não?) desafinava, perdia o tom, mas recompunha tudo no próximo ponto. Ou voltava e tentava novamente, usando outras notas. Era um processo tão sonoro, tão rico, quase como compor uma música. Minha professora de Português se aproximava devagarzinho e tentava ouvir o que eu murmurava, mas não conseguia escutar. Quase ninguém consegue mesmo hoje em dia.
Ainda tenho essa mania estranha, mas disfarço o máximo que posso. Sabe como são os moralista perto de alguém não tão convencional. Quando estou em casa, sozinho, começo digitando simples palavras, consciente que não posso ir além, na tentativa vã de sanar meu vício momentaneamente (que palavra deliciosa esta), mas não bastava. Precisa de mais. Quando via já tinha um texto composto. Não há prazer maior do que sentir nas cordas vocais o que não é visível pelo homem comum. Saborear as consoantes bilabiais que saem quase como um beijo com certo gosto anasalado, meio envergonhado ou (ex)plosivo como um tiro, lá do fundo grande parte das vezes. Pitadinhas extras. Sem falar nas consoantes mais rebeldes, que friccionam e deixam sua marca ou aquelas vibrantes que assustam pela sua força. As vogais já são diferentes, são simétricas, dotadas de propriedade. Elas se acham, preciso admitir, mas únicas em seus contornos. Não importa. São todas um delírio para meus sentidos. Um prazeroso sexo verbal. (Renato Russo que me perdoe). No entanto, não é seu som isolado que chamam sua atenção, mas o sentido uníssono que criam. Minha escrita é produto disso. Minha escrita é o barulho mais ensurdecedor que conheço.
Quando passos esses longos tempos sem escrever, sinto como se uma voz tivesse se calado. Aquela que me diz para onde ir, o que fazer quando os caminhos parecem tempestuoso demais, terrivelmente silenciosos e obscuros. O que escrevo tem o tamanho do mundo. Não é fatiavel e analisável. Não é bonitinho, legalzinho, rimadinho, nenhum outro “inho”. Nem “ão”. Muito menos material didático. Está além daquilo tudo que digo como ser humano comum, vulgar e ordinário. Tem cadência, perda de nota, erro de conjugação. É vivo. É a parte mais quente de mim. É o meu grito.
O silêncio é necessário, mas não é nele que está contido tudo aquilo que importa de verdade. É no conteúdo impreciso que está esse calor; da palavra impura que é expelida como um feto, procurando seu lugar no mundo. É a verdade. Vento farfalhando seus desejos obscenos entre as árvores. O mar. Barulho de rua cheia de movimento, de carros indo e vindo, de gente conversando, rindo, chorando, gozando, vivendo. Impactante. Inquietante como só ela pode ser. E me desculpe de verdade aqueles que amam o subentendido. O silencio não me satisfaz.



